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Tecnologia Aeronáutica / Europa

Desafio energético

Suíça investe em pesquisa para desenvolvimento de combustível sustentável

Rafael Albornoz/Unsplash

Gabriela Ramos

5/5/2021

Institutos de pesquisa suíços estão iniciando estudos para o desenvolvimento e produção de combustível a partir de recursos renováveis, já que a aviação é um dos setores que mais emite gás carbônico atualmente, sendo responsável por até 3% das emissões de CO2 no mundo, apesar das iniciativas para mudar isso, como investimento no uso do SAF (Sustainable Aviation Fuel) e projetos de aeronaves elétricas. Existe a expectativa de que nos próximos anos essa porcentagem aumente ainda mais, podendo triplicar até 2050, como consequência de um aumento na demanda de voos. Entretanto, para que uma mudança ocorra, diversas outras medidas terão que ser adotadas em todo o mundo. Um dos grandes desafios é a produção do combustível em larga escala.

Em um trajeto de ida e volta, por exemplo, de Londres a São Francisco é emitido aproximadamente uma tonelada de CO2 por passageiro, o que seria equivalente ao que um carro a diesel emitiria se dirigisse por mais de 3.700 milhas (aproximadamente 5.900 quilômetros).

Uma das maiores apostas para mudar esse cenário a médio prazo é o investimento no SAF, o combustível sustentável para aviação, que diminuem em até 80% as emissões de carbono em comparação com o combustível comum. O SAF pode ser produzido através de biomassa, plantas, óleos de palma e de cozinha, resíduos sólidos e até luz solar.

Apesar disso, o SAF é muito pouco utilizado atualmente, tendo representado menos de 0,01% do combustível consumido pela aviação em 2018. Isso ocorre principalmente por causa de seu alto custo e, assim, acaba sendo utilizado por poucas companhias aéreas e ainda misturado com o combustível convencional.

Porém, a International Air Transport Association (IATA), organização global que apoia a aviação com padrões globais para companhias aéreas em segurança e sustentabilidade, pretende incentivar o aumento em massa do uso do SAF até 2025, estimulando mais companhias a aderirem, inclusive fora do setor de aviação, e também desenvolvendo formas de produzir mais combustíveis sustentáveis por preços mais acessíveis.

Assim, o Empa (Laboratórios Federais Suíços de Ciência e Tecnologia de Materiais) e o Instituto Paul Scherrer divulgaram a iniciativa de pesquisa “Combustíveis Sintéticos”, visando estudar e encontrar novas formas de produzir SAF. O projeto custará 6,2 milhões de francos suíços, equivalente a 6,5 milhões de dólares.


Tim Dennert/Unsplash

Segundo Peter Jansohn, pesquisador do Instituto Paul Scherrer, os “combustíveis sustentáveis drop-in – ou seja, combustíveis para aviação que podem ser colocados nos tanques sem ter que fazer alterações na aeronave – são o caminho de transição ideal. (...) Esses combustíveis darão uma contribuição considerável para reduzir as emissões de CO2 da aviação”.

Björn Niesen, também pesquisador do instituto, afirma que “sistemas alternativos de propulsão de aviões, como hidrogênio e baterias, que ainda são muito pesados para voos de longa distância, levarão muito tempo para serem elaborados e certificados. Então, realmente precisamos ter uma solução como combustíveis de aviação sustentáveis. Não há outra alternativa rápida”.

A ideia é que essa pesquisa seja capaz de desenvolver novas formas de produzir o combustível, através do estudo de técnicas utilizadas hoje e também novas técnicas. O processo de produção do combustível é através da combinação entre hidrogênio de fontes renováveis e dióxido de carbono, que pode ser obtido de diversas maneiras. Segundo Niesen, o mais comum hoje em dia é a utilização de éter dimetílico e metanol, mas a Empa está buscando desenvolver um processo à base de eteno.

Contudo, existem discordâncias em relação à utilização do SAF como uma alternativa sustentável, sendo o Greenpeace um dos críticos dos combustíveis sustentáveis, pois afirmam que esta seria uma falsa solução, já que acreditam que a utilização de safras para biocombustíveis apenas pressionaria ainda mais o nosso ecossistema.

Por esse motivo, Jansohn afirma que é necessário aproveitar outros recursos de carbono, reciclando CO2 de diferentes procedências, para poder garantir uma produção suficiente de SAF no futuro. Entretanto, esse processo ainda é muito caro, já que exige muita eletricidade renovável em sua produção, além de também possuir pegada de carbono.

Na Suíça, outras parcerias também foram feitas pensando em desenvolver mais métodos de produção de SAF, como a parceria entre a Synhelion, empresa suíça desenvolvedora de combustível solar, e o Grupo Lufthansa. A Synhelion utiliza luz solar e ar para produção de combustíveis livres de carbono.

Em setembro de 2020, o Grupo de Ação de Transporte Aéreo, ATAG, divulgou o documento Waypoint 2050, onde relata que, para cumprir a meta de zerar as emissões de carbono até 2050, seria necessário produzir entre 450 e 500 milhões de toneladas por ano até lá, sendo que atualmente a produção é de 64 mil toneladas por ano. Atingir essa meta é o maior dos desafios, mas segundo o documento, a meta está “longe de ser intransponível”, e pode ser atingida através de “critérios de sustentabilidade rigorosos”, e por uma produção que utilize uma "gama de matérias-primas de culturas não alimentares a fontes de resíduos e, eventualmente, uma mudança para combustíveis de energia para líquidos feitos de CO2 reciclado ou capturado diretamente e baixo-carbono”, a fim de diversificar a produção.

Reprodução/Defesanet

Além disso, ações individuais e políticas governamentais também podem ajudar nesse processo. Como exemplo, a Suíça aprovou em setembro um imposto sobre carbono nas passagens aéreas, que será revertido em um fundo climático e em produção de SAF.

Outro exemplo de políticas governamentais é o de Bruxelas, que pretende introduzir uma cota obrigatória de SAF às companhias aéreas. Entretanto, as empresas têm se mostrado resistentes a este plano, já que o custo do SAF é ainda muito alto, o que provavelmente traria prejuízos às companhias, ainda mais no cenário de crise ocasionado pela pandemia. Apesar disso, a Boeing e a Airbus afirmaram que até 2030 passarão a fabricar aviões aptos a voarem apenas com combustível sustentável.

O Empa e o Instituto Paul Scherrer afirmaram que diversos setores demonstraram interesse pelo projeto, como o Escritório Federal de Aviação Civil da Suíça e o Departamento de Defesa, apesar de não haver ainda nenhuma parceria oficial.

Segundo Niesen, “não estamos tão longe. Temos a tecnologia e o desenvolvimento para escalá-lo até um tamanho em que possamos produzir grandes quantidades de combustível. (...) A ideia é realmente nos prepararmos para o estágio em que possamos conversar com parceiros industriais para estabelecer projetos e sistemas piloto”.





Gabriela Ramos
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