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Aviação Militar / Ásia

Enfrentando o Talibã

Força Aérea do Afeganistão perderá sua vantagem com a retirada dos Estados Unidos

C-130 Hércules
Md Shaifuzzaman Ayon, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Gabriela Ramos

6/15/2021

Com a retirada dos Estados Unidos, a Força Aérea Afegã (AAF) perderá sua única vantagem na guerra com o Talibã, pois não mais irá dispor de seu braço aéreo, situação para a qual não estava preparada.

Mais da metade das tropas americanas já realizaram a retirada, e com a saída da tropa completa, a Força Aérea Afegã poderá ficar paralisada por meses. Para evitar isso, o governo do país precisará encontrar uma fonte alternativa de manutenção para seus helicópteros Black Hawk e seus aviões C-130 Hercules.

Além do enfraquecimento de suas forças terrestres, a retirada dos Estados Unidos também irá restringir a capacidade de Cabul realizar missões de vigilância e reconhecimento do Talibã. Isso poderá alterar o rumo do campo de batalha, ainda mais tendo em vista que o Talibã, no último verão, intensificou uma ação ofensiva no país.

Três anos antes, o Afeganistão planejou, contando com o apoio da Otan e dos Estados Unidos, uma “década de transformação” até 2024, com um desenvolvimento das suas forças de segurança, de acordo com um oficial de segurança sênior. O plano de desenvolvimento incluía a instalação de estabelecimentos para manutenção de aeronaves no país, além do treinamento de pilotos e mecânicos.

Segundo o oficial, o apoio das forças americanas foi “extremamente crítico para a forma como as forças [afegãs] lutam. Eles estão acostumados a ter apoio aéreo aproximado para a maioria das grandes ofensivas. Eles podem fazer ofensivas sem isso. Mas o terreno no Afeganistão é muito difícil, e a Força Aérea nos deu uma vantagem adicional da qual dependemos. E agora teremos que fazer ajustes”.

O Afeganistão, contando com o apoio estadunidense pelos três anos seguintes, aposentou suas aeronaves, seus pilotos e mecânicos, apostando na substituição por uma frota fornecida pelos Estados Unidos.

“Agora que eles estão se retirando e não vamos receber dos americanos as células que havíamos planejado, teremos que ficar com parte da frota antiga. Isso cria para nós um desafio que não havíamos planejado. Portanto, estamos em um território desconhecido no que diz respeito ao conflito”, afirmou o oficial.

A retirada acontece num momento de intensa ação ofensiva do Talibã. Embora os números não sejam precisos, fontes políticas afirmam que centenas de pessoas morrem todos os meses no conflito. Apesar disso, de acordo com uma fonte anônima envolvida no esforço de paz, as principais cidades não foram dominadas. “O fato de não terem conseguido fazer nenhum ataque significativo nas grandes cidades, em Cabul ou em qualquer outro lugar, ou não terem conseguido dominar uma grande cidade, mostra que o governo é capaz de se defender”, afirma.

Apesar das já conhecidas opiniões de Joe Biden a respeito das pegadas militares no exterior, o Afeganistão foi pego de surpresa pela decisão de prosseguir com a retirada. Os termos de retirada foram originalmente negociados por Donald Trump e a previsão era que o recuo ocorresse em primeiro de maio. Biden optou por manter a decisão da retirada, tendo apenas alterado o prazo: agora, a saída será em 11 de setembro.

No acordo de Trump, os Estados Unidos cortariam relações com o governo afegão, retirando as forças estadunidenses do país, em troca da suspensão dos ataques do Talibã às forças dos Estados Unidos e de uma ruptura com a Al Qaeda. Apesar do Talibã não ter rompido com a Al Qaeda, o acordo prossegue e a retirada está em curso.

Um outro problema é que, junto com as tropas estadunidenses, os empreiteiros também estão se retirando, e são eles que realizam a manutenção das aeronaves, possibilitando que a Força Aérea se mantenha ativa.

O general Kenneth McKenzie Junior, chefe do Comando Central dos Estados Unidos, afirmou em abril: “estou preocupado com a capacidade dos militares afegãos de resistir após nossa partida, em particular com a capacidade da Força Aérea Afegã de voar, depois de removermos o suporte para essas aeronaves”.

McKenzie também afirmou que, apesar de os Estados Unidos não terem a intenção de oferecer apoio aéreo às forças terrestres afegãs, eles pretendem tentar ajudar a manter a AAF voando, oferecendo peças de reposição.

Uma alternativa possível seria encontrar algum país vizinho que concordasse em hospedar uma base militar para oferecer apoio aéreo às tropas afegãs. Lloyd Austin, secretário de defesa, afirmou recentemente que estão buscando “a capacidade de encurtar as pernas no futuro, estacionando alguma capacidade em países vizinhos. Isso ainda é um trabalho em andamento. (...) Continuamos a fornecer apoio às forças de segurança afegãs à medida que retrocedemos. (...) Uma vez que tenhamos completado nosso retrógrado, isso será muito difícil de fazer, porque nossas capacidades terão diminuído no país”, conclui.


C-130H Hércules
Mulag, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons








Gabriela Ramos
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